sábado, 30 de junho de 2012

Entidade

   Meu nome é Roberto. Sou de origem muito simples, um caipira que saiu do interior para tentar a sorte na cidade grande. Não fui bem sucedido, como a maioria. Terminei casado com uma garota que engravidei nos meus primeiros meses como cidadão belorizontino, sendo obrigado a aceitar a primeira proposta de emprego oferecida. Aceitei o cargo de caseiro em uma bela residência na região da pampulha. Uma mansão maravilhosa, algo que eu jamais terei em minha vida. É propriedade de um empresário de renome no país, dono de uma das empresas de autómoveis mais populares que se tem conhecimento. Apesar de sua riqueza, o infeliz me paga um salário minímo, que mau dá para sustentar meu amado filho. O mundo é injusto, mas não reclamo. Sou feliz apesar dos problemas. Não convivo com uma maldição, assim como o meu amável patrão.

   Meu patrão tem uma família com um histórico um tanto trágico. Tinha seis irmãos, dos quais apenas dois estão vivos. Os outros morreram de forma misteriosa. Não foram acometidos por doença, fatalidade, ou até mesmo por alguma ironia do destino, quase sempre zombador conosco, os pobres e frágeis mortais. Simplesmente faleceram, como se tivessem decidido por conta própria. Juro que não se suicidaram. Foram todos encontrados em seus leitos de morte da mesma maneira, com olhos esbugalhados, expressões de puro e inexplicável terror, como se tivessem tido um encontro em particular com o próprio diabo. Mortos de pavor. O que teria lhes assustado tanto? Não faço idéia, mas tenho certa desconfiança. A coisa que lhes tirou a vida parece habitar a velha mansão há muitos anos. Não gosta de visitantes indesejados. Como podem perceber, não costuma tratá-los com o devido carinho.

   Perderam a vida no mesmo dia. Estavam passando férias na mansão, com todo o conforto possível fornecido por meu patrão, um homem bondoso com os de seu sangue. Lembro-me bem da estadia curta daqueles malditos, que não me deixaram dormir por uma noite sequer enquanto aqui permaneceram. Faziam festas até as altas horas, sempre com o som ligado na maior altura, uma barulhada infernal, que seguia sem cessar até o dia amanhecer. Convidavam todo tipo de prostituta para essas confraternizações, mulheres vulgares, o tipo que só serve para dar uma noite de prazer, sendo descartada logo após o uso. Transformaram a propriedade de alto nível em um lugar deplorável, quase em um mótel de beira de estrada em tamanho família. Mesmo assim, o castigo que receberam foi um tanto pesado demais. Detestava aqueles sujeitos, mas nunca desejaria um fim tão trágico para qualquer um deles.

   Trabalho nesse lugar há cinco anos, e já vi muita coisa estranha acontecer por aqui. Tive muito medo no ínicio, mas acabei por me acostumar. O ser humano é capaz de se adaptar a qualquer situação, a perder a sensibilidade diante de atrocidades, fatos anormais. De vez em quando me deparo com cenas um tanto inesperadas, acontecimentos surreais, que em algumas épocas, foram as responsáveis por noites intensas, recheadas de pesadelos. Minha mulher mora comigo na pequena casa de caseiro, que fica apenas há alguns metros da mansão, e pode confirmar sem sombra de dúvidas tudo o que já vivenciei por aqui. Inclusive ela mesma, passou por poucas e boas nesse lugar. Deixou de ter fé inclusive, quando encontrou a sua imagem preferida de Santa Maria jorrando sangue descontroladamente, em jatos fortes, como se a pequena estatueta tivesse alguma artéria perfurada, um coração em seu interior capaz de bombear sangue. Minha amada esposa quase enlouqueceu. Me pediu para irmos embora, mas eu a detive. Não podemos ser livres. Temos a responsabilidade de manter um filho no mundo, e isso custa caro. Estamos atados por um erro do passado, presos nesse inferno, por tempo indeterminado.

   Os irmãos de meu patrão passaram por situações um tanto incomuns na primeira noite. Luzes inquietas, que se apagavam pela casa do nada, como se fossem donas de si, capazes de articular pensamentos, atitudes. Reclamaram por várias vezes do problema, cobrando de mim alguma solução, a qual como bem sabem, eu não poderia prover. Chamei eletricistas para conferirem o quadro de luz, mas nada encontraram. E foi assim durante todo o restante de noite. As luzes apagavam, acendiam, explodiam em milhares de fragmentos. Perturbavam minha paz, pois sempre que isso acontecia, eu tinha de fazer a reposição das lâmpadas. Tinha de adentrar no interior da mansão. Sinto calafrios quando entro naquele lugar. Sinto-me observado por uma presença opressora, pesada como chumbo, algum ser invisível, perigoso. Os avisos de sua presença surgiam por toda a residência, mas os irmãos de meu patrão preferiam ignorar. Estavam entregues aos efeitos avassaladores do alcóol. Cegos de sanidade. Era tarde demais. Não poderiam escapar ao que já havia sido traçado pela mãos hábeis da morte.

   As coisas foram piorando. Na terceira noite, janelas e portas batiam com estrondo, quase que a todo momento. Juravam ser obra do vento. Estranho que na região da pampulha, não costuma haver intensas ventanias. Os irmãos pareciam não estar cientes desse fato, ou preferiam pelo menos ignorá-lo. Claro, a diversão era mais importante do que preservar suas próprias vidas. Interromper a festa pelo simples fato de que o chafariz está jorrando sangue de maneira inexplicável? Nunca! Havia explicação para um fenômeno desse tipo. Alguém tinha passado mau e vomitado tanto, que na falta de algo a ser expulso do estomâgo, começou a gorfar sangue. O problema é que ninguém assumia a autoria de tal obra. Colocavam a culpa nas putas que frequentavam a casa durante a madrugada. Permaneciam céticos, enquanto a entidade ia ganhando espaço, adquirindo mais força, tornando-se fatal. Então, a data trágica chegou. Foi ai que aconteceu.

   Tinham terminado a bagunça da noite. Estavam todos dormindo profundamente. Eu me ocupava de dar uma geral no jardim, que não era capinado há bastante tempo. Estava absorto em tal tarefa, quando escutei vários gritos vindos do interior da mansão. Estavam carregados de dor e de um medo indomável, daquele que nos acomete quando nos vemos presos em um pesadelo que retarda nosso despertar. Fui até a porta da frente, disposto a verificar o que de fato ocorria. A pesada porta de mármore se fechou com estrondo, trancando-se por conta própria. Não desisti. Tentei entrar por uma das janelas, mas assim que toquei sua superfície, minhas mãos queimaram como se tivessem entrado em contato com brasa. Senti minha pele se descolando do corpo, como borracha derretida. Ardia muito, mas ignorei meu sofrimento, disposto a socorrer o quarteto de irmãos, que continuavam a berrar, como loucos desvariados. Agarrei-me a um pedaço de ferro, jogando-o contra uma das janelas. A barra parou no ar, e ficou flutuando, balançando de um lado para o outro, como se fosse movida por algum ser invisível. De súbito, voou em minha direção, acertando-me em cheio no meio da cabeça. Cai inconsciente.

   Quando me recuperei, não havia mais nada a ser feito. A pesada porta de mármore estava aberta, me convidando a adentrar na mansão. Entrei naquele maldito lugar, e logo fui tomado por um cheiro horrível que tomava conta de todo o ambiente. Parecia carne apodrecida. Segui o rastro deixado pelo odor, até que cheguei ao quarto onde antes dormiam os irmãos. Continuavam em suas camas. Estavam imóveis, duros como concreto, e exibiam uma careta de horror perturbadora, com a boca aberta de maneira desproporcional, em um ângulo impossível de ser imitado por lábios normais sem que os mesmos se rasgassem. Estavam com a pele tomada por uma cor negra, vista apenas em cadáveres em um estágio avançado de decomposição. Sangravam pelos olhos, em um choro de agonia, um pedido de clêmencia que parecia não ter sido atendido.

   Deixei o interior da mansão abalado. Minha vontade era pedir demissão no mesmo dia, abandonar meu emprego, fugir desse lugar amaldiçoado. Não posso. Ninguém quer me contratar. Já tentei procurar por trabalho em outros locais, mas fui veemente recusado. Me acham ignorante pelas minhas origens. Caipiria não tem espaço na cidade grande. Sou obrigado a permanecer como caseiro, tomando conta dessa terra macabra, desprovida da benção de Deus. Temo por minha família. Não sei do que a entidade que convive conosco é capaz. Não teremos para onde fugir quando ela resolver nos procurar. Estamos a mercê da coisa. Entregues as suas cruéis vontades, como cordeiros, aguardando apenas pelo derradeiro momento do abate.
  
  

 

 

 

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