sábado, 1 de março de 2014

Imortal

     Morte é o fim do caminho? Jorge acredita que não. Viu muita coisa para ter desconfianças dessa verdade atirada aos quatro ventos por todos que caminham pela Terra. Céu, inferno, são conceitos que não entram mais em sua cabeça e o fazem se envolver em uma luta íntima de teor filosófico. Real, fantasia, não existe mais uma linha que limite o distanciamento dessas definições. Não consegue mais saber o que é de fato pertencente ao mundo que lhe ensinaram a enxergar desde muito pequeno, onde demônios e anjos coexistiam em eterno combate, e Deus, um senhor de vestes brancas e longa barba, residia na maior das alturas, a tudo assistindo com sua sabedoria infinita. Essa era a sua noção de universo invisível, o máximo que poderia assimilar de fantasia, o que lhe permitiam que pudesse imaginar em sua mente ainda longe de amadurecer. Como poderia pensar que havia algo além disso? Descobriu da pior maneira possível, que existe muita coisa que vai além da ingênua consciência humana e que quando descobertas, podem levar um sujeito normal a mais completa loucura.

   Sua atual residência é no número 198 da rua Otaviano, na pequena cidade de Pontas, em Minas Gerais. Vive em um hospício há quatro anos, em um cárcere que se fez necessário por sua insanidade incurável. Perdeu a linha ao ver-se diante de coisas que fugiam ao seu controle, questões sobre eternidade que nunca antes tinham passado por sua cabeça e que agora desfilam sem cessar por sua mente adoentada, a ferindo ainda mais e alimentando o senso de irrealidade latente em seu íntimo. A maldita ainda lhe surge em pesadelos intermináveis, nos quais desperta com o corpo suado, os olhos arregalados em conjunto com sua boca escancarada, por onde sua alma aterrorizada fugiria se fosse possível. Não pode dizer a si mesmo que o que viu é mentira, pois sabe muito bem que isso seria uma maneira covarde de fugir da verdade. E assim os dois lados de seu eu se digladiam violentamente, o lado racional querendo colocá-lo como um contador de lorotas e sua faceta crente no inexplicável berrando em alto e bom som que o ocorrido não havia sido mero devaneio, e sim, um fato real e incontestável. Difícil se fazer existir como um homem dividido ao meio.

     A culpa é da sua tia Rita. Nunca a tinha levado a sério, não antes do inexplicável ocorrer. Todos da família a viam como a senhora excêntrica, dona de teorias estranhas, ideias de doida que compartilhava com quem quisesse ouvir, mesmo sabendo que seria motivo de piada assim que se calasse. Ela acreditava ser imortal, uma deusa condenada a vagar no meio de meros mortais, seres que nunca conseguiriam compreendê-la. Falava que permaneceria viva após seus conhecidos partirem para o desconhecido, para a escuridão existente depois do último e derradeiro fechar de olhos. A parte cristã da família a evitava, condenando-a ao inferno por dizer tantos absurdos, outros ficavam distantes, temerosos de serem contaminados por tal loucura, e as crianças... elas a seguiam, achando graça da tia biruta.

   Jorge gostava particularmente de escutá-la, se deliciando com as tantas estórias que a tia lhe contava, e ficava deslumbrado com a criatividade dela, curioso em descobrir de onde ela tirava tanta imaginação. Sorria ao ouvia-la falar que havia visto impérios inteiros caírem por sobre a terra, sociedades de tempos passados sucumbirem ao poder inevitável que a modernidade traz ao presente. Rita se colocava como a personagem central de suas narrativas e contracenava com nobres de séculos deixados há muito para trás, sempre a mocinha a viver as mais diversas aventuras, com direito a magia e o que há de mais absurdo em matéria de fantasia. Quando restava apenas silêncio ao término das estórias, Jorge sempre fazia questão de fazer a mesma pergunta, divertido em ouvir a resposta padrão da tia biruta.
— E era você mesma? Como poderia se isso aconteceu há séculos atrás? Ninguém vive tanto.
— Esqueceu que sou imortal? Pra mim nada é impossível. — respondia tia Rita, provocando um desejo irrefreável de rir em Jorge. O garoto se segurava. Ao contrário dos outros, não gostava de ridicularizá-la por nada. A via como doida, mas nem por isso jogava isso na cara dela.

      Certo dia, sua mãe o proibiu de continuar visitando a tia, afirmando que ela era uma péssima influência, alguém que o afastaria do caminho da salvação oferecido pelo bom Deus das Escrituras. Nem tentou discutir. Sua mãe era sempre quem dava a última palavra, a líder natural a traçar as leis que deveriam ser seguidas sem questionamentos dos que estivessem abaixo de sua posição na hierarquia da família feliz, comum a quase todo lar que se preze. Como bom filho que era, obedeceu e nunca mais viu tia Rita, pelo menos não viva.

   Aconteceu um ano depois da proibição da mãe. Os boatos na época foram variados, mas ninguém conseguiu chegar a uma explicação aceitável para a repentina morte de Rita. Alguns diziam que havia enfartado, espalhando por meio de fofocas que a mulher não se cuidava como deveria, comia porcarias a reveria e ficava a maior parte do tempo em casa, não se prestando a fazer sequer uma caminhada de alguns minutos, para pelo menos diminuir os fatores de riscos das doenças comuns a pessoas sedentárias. Outros afirmavam categoricamente que era uma punição do bom Deus, por ela ter levado uma vida de pecados, por negar sem pestanejar a benção de Cristo. A verdade é que nem a medicina conseguiu desvendar o motivo da morte dela. Puro mistério, que instigava a mente de todos e incentivava o surgimento das mais diversas teorias, por mais sem sentido que fossem.

     Apesar dos critícos que conservará em vida, tia Rita teve um funeral caprichado, cheio de belas coroas de flores e presenteada com um caixão com enchimento de veludo, que até os vivos gostariam de ter no quarto para descansar as costas de vez em quando. Muita gente compareceu, a família inteira, tanto os que gostavam dela mesmo que desgostassem de suas excentricidades e até os que por ela guardavam desprezo por sua condição de louca de pedra. No meio da pequena multidão reunida para dar adeus à mulher nascida para ser comentada em rodas de boteco e nas reuniões de família que ocorriam algumas vezes por ano, estava Jorge, o garoto olhando hipnotizado para o caixão aberto, fitando a face imóvel da tia com visível respeito, que poderia ser chamado de temor. Em sua imaginação de criança, a via se levantando como um morto vivo de filmes antigos de terror, correndo de braços abertos na sua direção, gritando o seu lema que naquele momento tanto lhe pareceu macabro, repleto de mórbida veracidade: — Sou imortal. Pra mim nada é impossível!

      Enquanto fitava a face dela em muda reverência, algo de estranho realmente aconteceu. Por um momento, julgou ter visto os olhos da tia se abrirem em lento movimento, as pupilas verdes da defunta voltadas para sua direção, entrando fundo nos seus olhos, penetrando no território proibido de sua mente e ali ficando marcados feito queimadura de fogo na pele. Sentiu-se enjoado, o chão sob seus pés mole como gelatina, tudo irreal demais para seu gosto, como que produto de um sonho descabido e que facilmente desmantela o sentido de qualquer um. Olhou para baixo, acreditando que logo desmaiaria e respirou fundo, querendo poupar-se da vergonha de cair como um saco de farinha no meio de tanta gente. Quando abriu os olhos novamente a ilusão havia passado, mas não o efeito dela.

   Como narrar sua surpresa ao ouvir gritos de desespero partirem do bolo de pessoas que antes velavam em silêncio o caixão, e que naquele instante de total estranheza, corriam de um lado para o outro e instauravam o caos em uma cerimônia que deveria seguir-se tranquila e não traumática. Homens e mulheres faziam uma roda em volta de um sujeito caído no chão, a mão direita firme no peito, ofegando sofridamente, vitíma de um ataque cardíaco violento, que por certo não lhe pouparia a vida. Era seu tio Roberto, com a face avermelhada, os olhos saltados de uma forma que prenunciavam que o pior inevitavelmente ocorreria. Ele gritou em seu último fôlego, palavras que vararam a carne dos presentes e fizeram cada um deles sentir um frio imensurável, fruto do horror de algo que ia muito além da capacidade de compreensão de pessoas acostumadas ao comum e não ao que extrapola o conceito de realidade.
— Ela abriu  os olhos. Imortal ela é! No túmulo não descansará, a morte nunca a levará. Meu Deus, me proteja do mau!

    Ele se calou  e morreu, os seus últimos espasmos de vida se seguindo com violência aterradora, músculos tremendo sem controle e os dentes batendo com tanta brutalidade que a maioria se quebrou e rolou em pedaços pelo piso de madeira da funerária, junto de pingos de sangue fresco. Os que haviam comparecido para o enterro de Rita se dispersaram rapidamente, uma parte fazendo sinal de cruzes com medo real despontando nas feições e alguns poucos se afastando para providenciar a remoção do segundo morto. Choro se ouvia vindo de todas as direções, mulheres gritavam histéricas, o inferno havia se incorporado ao funeral, quebrando a aura de despedida que antes por ali residia. Jorge se afastava dali junto da mãe, o rosto uma máscara de medo. O tio também a havia visto abrir os olhos, então... não tinha sofrido de uma alucinação. Havia sido real, mais até do que a percepção que se tem da própria respiração em momentos de solidão, em que nada mais se revela importante. Teve certeza de que teria pesadelos ao cair desacordado nessa noite.

     Semanas se passaram depois do evento, e Jorge não conseguiu se livrar das recordações do bizarro funeral. O episódio era lembrado principalmente em pesadelos, quando se via abandonado em um enorme salão repleto de candelabros, uma mesa negra atirada no centro do recinto, onde tia Rita descansava inerte, tal o cadáver que deveria ser após ter sido tocada pela morte. Então, ela abria os olhos tingidos pelo verde assustadoramente cor de esmeralda, e lhe fitava demoradamente, provando com um sorriso divertido no rosto, que afinal não era a louca, que sim, era imortal como uma deusa, não perecível aos efeitos predatórios do tempo. Imortal. Maldita palavra que pairava pela mente de Jorge feito folha seca desprendida de uma árvore, rodopiando de um lado para o outro, sem nunca abandoná-lo em definitivo.

       Foi assim por muito tempo. O trauma chegou a se arrastar por sua adolescência, atrapalhando suas experiências sociais. Lembrava-se da face da tia no caixão quando estava sozinho, mesmo quando rodeado de pessoas, por vezes até caminhando pelas ruas da sua cidade, a vendo em vidraças de loja a lhe sorrir zombeteiramente, os lábios tingidos por um vermelho cor de sangue que fazia a vista doer em resposta. Jurava que podia escutar ela lhe gritando, “sou imortal! Pra mim nada é impossível!”e ao ouvir a voz da defunta lhe tocando os ouvidos um grito era algo complicado de conseguir se segurar na garganta, onde deveria ficar sem soar, contido para não denunciar para Deus e o mundo o grau preocupante da loucura que se desenvolvia incubada em sua mente feito um parasita.

     Seus pais perceberam o esforço que fazia para se manter afastado das pessoas, isolado no casulo que havia construído para si, em uma tentativa falha de interromper o processo perigoso de irracionalidade que vinha lhe tomando o espírito. Preocupados com o filho problemático, o encaminharam para ser tratado por um psicológo bem conhecido na região, um profissional tido por todos como capaz de fazer milagres, fazer sumir neuroses em seus pacientes com poucas consultas e o minimo de desgaste possível. Jorge ia para as consultas desacreditado, mas teve de dar o braço a torcer com o passar dos meses. O psicólogo, um homem de meia idade chamado Ramon, era bom de lábia e após ouvir o relato do garoto, conseguiu fazê-lo acreditar que tinha imaginado o episódio, isso sem desprender maiores empenhos nessa façanha. No ano seguinte Jorge era uma nova pessoa, curado completamente do seu passado, pronto para viver como um indivíduo normal. Mal sabia que antigos fantasmas não costumam desaparecer por completo. A coisa ainda sobrevivia em seu cerne, apenas esperando pelo momento oportuno de retornar à superfície.
***
     Jorge tornou-se um adulto comum como qualquer outro, e construiu família com a esposa Selma, com quem teve três filhos, separados por poucos anos de idade em ordem de nascimento. Estava feliz, nada parecia capaz de abalar seu mundo sustentado em puro realismo, moldado por sua mente prática, educada para recusar qualquer conceito que pudesse dar margem à fantasias desvairadas. Nem mesmo religião lhe chamava a atenção, apesar de ter crescido em família cristã. Depois das inúmeras consultas com o psicólogo na infância, qualquer coisa que ameaçasse ir para o lado do sobrenatural era suficiente para lhe causar repulsa. Amadureceu como um cético dos mais radicais que se pode haver.

     É natural que se tornasse um homem infértil para qualquer fantasia. Julgava sua experiência quando criança como um devaneio dos mais extremos, daqueles que acometem um sujeito que use drogas pesadas. Passou a acreditar que naquele dia esteve demasiadamente perto da loucura, a um passo para tropeçar e cair no abismo da insanidade. Temendo perder a linha apenas com o ato de pensar a respeito do assunto, Jorge evitou ruminar a maldita lembrança, mesmo quando os gritos de seu tio alucinado pela visão do impossível, ressoavam com toda a força em sua mente, a prova incontestável do que preferia negar até a morte. O medo era a barreira que o segurava e o impedia de adentrar na densa escuridão da memória. Pelo menos foi por um tempo, até que um dia o dique se rompeu e a corrente poderosa antes retida veio ao seu encontro, sem que nada pudesse fazer para evitá-la.

    Foi em uma noite de verão, em que o sono não vinha, dificultado pela alta temperatura e pela sinfonia infernal dos pernilongos a atormentá-lo. Fechava os olhos e esperava impaciente que adormecesse sem aviso, desejando cair o mais fundo possível no veio de seus sonhos, mas isso lhe era negado e as horas iam passando, em um ritmo vertiginoso, terrível de se suportar. Em certo momento cansou-se de  esperar e levantou-se para tomar um copo de água gelada. Saiu de fininho do quarto, com todo o cuidado possível para não interromper o descanso da esposa.

    Pegou sua água e foi para a janela da sala, e lá ficou observando o quintal da sua casa, dando goles em meio a longos intervalos, sem pressa nenhuma de voltar para a cama. Já eram três horas da manhã e dali há outras três horas teria que sair para trabalhar. Que diferença faria se continuasse acordado? Para ele nenhuma, visto que havia perdido a noite inteira acordado. Não queria nem se imaginar no serviço, se forçando a permanecer desperto para cumprir com suas obrigações. Que longo dia teria!

     Terminou sua água e antes que pensasse em retornar para o quarto, um zumbido saiu das trevas da noite e infestou seus ouvidos. De súbito, a sua sala de estar se desfez como uma cena montada em um palco de teatro, e o que lhe surgiu ante aos olhos foi um portão gradeado escancarado, açoitado por uma chuva furiosa. Uma estradinha de terra perpassava pelo portão e seguia em linha reta por prados de verde escuro, coalhados aqui e ali por flores de várias cores, a maioria cabisbaixa sob o intenso temporal. Criptas terminavam de enfeitar o cenário, junto de imagens de anjos de mãos unidas, em mudas orações que nunca seriam pronunciadas por seus lábios de pedra. Era um cemitério, aliás bem conhecido por Jorge, como o descanso derradeiro de sua tia Rita.

    Quando deu por si, estava novamente na sala da sua casa, e os raios solares se infiltravam descaradamente pelas janelas, iluminando os vãos antes escurecidos pelas sombras profundas da noite passada. Olhou para o relógio pendurado na parede oposta e assustou-se ao perceber que estava uma hora atrasado para o trabalho. Sentou-se no sofá desnorteado, tentando entender o ocorrido, esforçando-se para desvendar o mistério por trás do desaparecimento de horas inteiras durante sua louca alucinação. Lembrou-se de ter parado ali para desfrutar do seu copo de água e de  ter sido envolvido pelo delírio, sentindo-se após ele como que saído de um sonho que dura toda uma madrugada, e só termina com um abrir de olhos impressionado, uma pergunta sendo formulada pela boca mesmo que ela por vezes não desfira as tais palavras no ar, tamanha a perplexidade diante da situação: “— Como o tempo pode ter passado tão rápido?”

   No serviço não conseguia se concentrar. A experiência lhe voltava vivida demais, com a trilha de terra seguindo por entre paragens gramadas e os túmulos contrastando macabramente ao serem tocados pelo brilho ameaçador de raios faiscando em um firmamento negro e sem vida. De fato, era o cemitério onde sua tia havia sido enterrada, em uma época que antes acreditava ter sido renegada ao esquecimento de um passado detestável, que voltava a bater em sua porta, trazendo consigo os seus juros exorbitantes. Desejava do fundo do seu coração, que isso não se tornasse rotina, que todas as noites não se visse de frente para o que queria ter deixado para trás em definitivo. Por mais que clamasse em silêncio para esses fantasmas se manterem afastados, Jorge ao mesmo tempo sabia que isso seria impossível. Não conseguiria continuar fugindo eternamente de seus terrores.

      Semanas se passaram e os delírios se tornaram mais enunciados. Em certa ocasião viu-se arrancado de uma reunião de trabalho e atirado no cemitério, vagando por entre criptas com os nomes desgastados de seus ocupantes, arruinados pela passagem esfomeada do tempo. A surpresa da alucinação não durou muito, pois segundos depois havia retornado para a sala, cercado por homens engravatados a lhe fitarem em busca de respostas para a sua expressão de assombro que nada condizia com a situação. Sorriu amarelo e pediu licença para ir ao banheiro. O que poderia dizer? Que estava enlouquecendo? Sem chance. Com uma família inteira para sustentar, não podia se dar ao luxo de ser afastado do emprego por estar sofrendo de transtornos inexplicáveis.

     Pensou em visitar psicólogos para falar sobre o seu novo problema, mas preferiu guardar o segredo para si mesmo. Não queria compartilhar algo tão íntimo para ninguém, nem mesmo para sua querida esposa, que vinha estranhando seu comportamento assustadiço e por vezes desligado, como se vagasse por outras realidades. Ela não poderia imaginar que pudesse estar tão próxima da verdade. Apesar das desconfianças da mulher, Jorge fazia um esforço anormal para continuar ocultando o que lhe ocorria, mesmo que isso lhe fizesse se sentir solitário, abandonado em terras estrangeiras onde era visto exclusivamente como inimigo. O que poderia dizer? “Querida, ando tendo visões estranhas sabe, coisa de louco, de biruta sem eira nem beira. Isso não é sensacional? O que você acha de espalhar a novidade para as crianças? Elas vão adorar saber que papai delas está doido da cabeça!” Não. Não queria assustar as pessoas que amava com algo que talvez fosse besteira, apenas uma crise de idade que pudesse passar em breve. Manteria-se em silêncio, pelo bem de todos.

    O fim do caminho chegou em uma noite de mormaço terrível, que antecipava uma tempestade, ameaçando a todos por entre nuvens negras a soltarem raios de intenso brilho, que iluminavam a tudo com um único rasgão no firmamento. Jorge estava acordado, pois tinha medo de dormir. Sempre que fechava os olhos via o portão enferrujado do cemitério rangendo em suas dobradiças, o vento soprando continuadamente, perpassando por seus ouvidos como doce melodia, uma canção soprada por alguma criatura além da mortalidade simplória dos pobres humanos. Era uma voz fatal, de atração arrebatadora, que lhe fazia desejar seguir seu rastro sem pestanejar, desconsiderando as consequências perigosas de obedecer o perigoso chamado. E por Deus, Jorge queria mesmo ir ao encontro da dona da voz, independente de estar rumando para sua própria perdição. Chega de fugir. Percebeu que era a hora de aceitar seu destino e enfrentá-lo de braços abertos.
***
     Foi em um sábado. Levantou-se bem cedo e saiu de casa em seu chevett 98, indo para o pequeno município de Pontas, onde havia nascido e passado praticamente toda a infância com a família, o lugar onde sua tia Rita havia sido enterrada, confiada ao seu descanso final. Tinha uma ótima desculpa para empreender a viagem, criada a quatro dias atrás, uma antecedência que não deixava espaço para que duvidassem de suas palavras. Havia dito à esposa que iria para uma reunião em Poços de Caldas, coisa da empresa, que queria espalhar mais filiais pelo restante do estado. Acrescentou ainda que não queria ir, que não suportaria ficar longe da mulher, mas... o dever vem em primeiro lugar, e não pode ser simplesmente desprezado. Ela engoliu a estória direitinho e não falou mais nada a respeito do assunto.

    Enquanto dirigia, as lembranças do passado retornavam sem cessar por sua mente tumultuada, principalmente as do dia do enterro da tia, dos olhos assustadoramente verdes dela, esbugalhados quando tinham de estar fechados para todo o sempre, apagados pela foice imperdoável da morte. Em seu íntimo desejava que nunca tivesse presenciado aquela cena irreal, que por algum azar que não conseguia explicar havia escapulido do terreno frágil dos sonhos para se insinuar no mundo real, ficar gravada em sua cabeça como um hematoma arroxeado que não some por inteiro, mesmo que anos inteiros se passem. Fato ou devaneio? Não tinha certeza de mais nada, e por isso esperava encontrar a resposta para suas angústias no terreno sagrado do cemitério.

     A viagem assombrada por fantasmas de um passado que preferia ter enterrado em definitivo, terminou após longas três horas, que pareciam que não queriam passar, em teimosia que causava aflição ao espírito já abalado de Jorge. Para seu alívio, no horizonte parcialmente coberto por nuvens escuras de chuva, surgiram os pequenos prédios da cidade de Pontas, edifícios em sua maioria de pequeno porte, antigos por estarem ali desde os primórdios da região, mas nem por isso decadentes e perto de ruírem em colunas de poeira e pedras empilhadas. Jorge sentiu o coração disparar no peito ante essa ansiada visão, e pressionou o acelerador com força, desesperado por chegar ao seu destino o quanto antes e encarar a coisa da qual vinha fugindo desde tenra idade.

    Parou antes em uma loja de construção, comprando com algumas notas uma pá de cabo de madeira. Jogou-a no porta-malas do carro e olhou pensativo para o céu, percebendo o quanto ele estava escuro, ameaçador quando cuspia seus ocasionais relâmpagos, urros de fúria da tempestade que logo assolaria os arredores. Entrou no carro e acelerou para a sua última parada, as mãos aferradas violentamente no volante, a ponto de deixar nele as marcas do aperto nervoso. Foram apenas quatro minutos até alcançar a rua onde se podia ver o antiquado portão gradeado de ferro, enferrujado por seu longo período de existência, movendo-se em ritmo ensandecido, ao gosto do vento gélido que soprava vindo das colinas próximas da cidade. Era o cemitério de volta à sua vida, após tanto tempo.

    Estacionou o carro e assim que colocou os dois pés para fora do veículo, a força dos ventos aumentou e soou como o uivo agonizante de algum animal que estivesse ferido e abandonado em uma clareira escura de uma floresta ensombreada. A chuva irrompeu das alturas, em gotas pesadas, que batiam nos ombros de Jorge e os faziam ceder alguns centímetros, como que galgados por anões brincalhões, de humores duvidosos. O homem prosseguiu pela cortina de água gelada, que aumentava de intensidade rapidamente, enquanto raios cintilavam pelos céus acinzentados, explodindo em árvores próximas e inaugurando o caos, que não tinha hora certa para terminar. Debaixo do aguaceiro Jorge agia metodicamente, como se estivesse à passeio em um dia de sol luminoso. Pegou a pá calmamente em seu porta-malas e atravessou o portão do cemitério. Tarde demais para se arrepender e voltar.

     Refez o passeio que vinha fazendo em sonhos e delírios regularmente, a caminhada por túmulos de pedra cinza e criptas enfeitadas por imagens de anjos, guardiões silenciosos dos mortos que ali descansavam. Foi caminhando penosamente pela estradinha sulcada de terra, escorregando no barro formado pela tempestade, que continuava a cair impiedosamente dos céus, como que furiosa com todos os que caminhavam pelo mundo, talvez jurada de fazê-los pagar por alguma ofensa antiga. Jorge estava com as roupas encharcadas, a pele tomada por arrepios decorrentes do frio, mas não  dava mostras de que recuaria. Estava decidido a ir até o fim, mesmo que tivesse muito a perder com isso. Além disso, a voz magnética já lhe soava pelos ouvidos, irrompendo pelo ar pesado de chuva e lhe convidando a ir em frente, a ignorar o resto e obedecer ao chamado. E foi isso mesmo que ele fez.

     Não teve de andar muito. Logo, estava de frente para o túmulo da tia, de onde subia da terra amolecida de chuva, o cantarolar da voz irresistível, que lhe pedia para começar a cavar, fazer seu serviço sem reclamar. Jorge assim o fez, metendo a pá em golpes seguidos no solo, cavando em bom ritmo, assobiando pelos lábios mesmo que nada pudesse ouvir de sua própria canção, tamanha a barulheira infernal da tempestade que continuava a cair, irredutível em parar. Meia hora se passou e a sepultura estava aberta, o caixão de madeira revelado, inchado por culpa da umidade decorrente, o longo período de reclusão nas entranhas da terra. Jorge o apreciou, os floreios talhados em sua superfície que um dia havia sido lustrosa, até seus olhos caírem em cheio em suas extremidades, os lugares onde seus dedos deviam se encaixar para que a tampa fosse arrancada e o interior dele revelado. A voz gritava em seus ouvidos, e exigia que terminasse logo com o que tinha de ser feito. Ele atendeu ao pedido.

    Agarrou com firmeza a tampa do caixão e após quatro tentativas infrutíferas de arrancá-la, na quinta alcançou seu intento e a tirou de um puxão, jogando-a para um canto qualquer da sepultura aberta. Olhou para o interior dele e viu a forma assustadoramente conservada de uma mulher, a pele pálida, mas nem por isso desprezível, carregada de uma beleza mística que ninguém seria capaz de explicar. Os cabelos molhados eram do mesmo tom negro que Jorge recordava-se da infância e os lábios da tia surgiam em um vermelho escuro, cor de sangue. Os olhos estavam abertos e eram verdes esmeraldas, tão vivos como os de qualquer outra pessoa. Lhe encaravam com real racionalidade, inteligência que morto nenhum poderia esbanjar. Jorge gritou ao sentir-se tocado por eles, apalpado como alguém que sofre de terrível abuso sexual.

     Ela lhe segurou pelos pulsos, sorriso de víbora despontando em sua face pálida. Os olhos verdes continuavam fixos nos de Jorge, que aprisionado em um rompante de loucura inconsolável, berrava a plenos pulmões, as veias saltadas em sua pele, os músculos retesados pelo puro terror que corria livre por sua corrente sanguínea. A tia mantinha o contato visual e como se não bastasse, sussurrou por entre os lábios a frase pela qual tanto ficou conhecida e eternizada no seio de sua família. “Eu sou imortal! Para mim nada é impossível, sobrinho querido. Não é uma alegria nos vermos de novo? Dê um beijinho gostoso na sua tia. Estava com saudades”. Disse ela, colando a sua boca na testa de Jorge, que não conseguia parar de gritar, desvairado, perdido nos campos desolados da insanidade, dos quais nunca mais seria capaz de retornar. Acabou perdendo os sentidos, caindo desacordado por cima do ventre da mulher imortal, que gargalhava em intensa alegria, satisfeita por seu retorno triunfal.

    Foi encontrado horas depois, tremendo sentado no caixão, mergulhado até as coxas em água barrenta de chuva. Gemia baixinho, de vez em quando soltava palavras ininteligíveis, que faziam os outros pensarem que estivesse falando em outra língua. A verdade é que ficava parado na mesma posição, olhos fechados, como  que temendo deparar-se com o próprio diabo ao abri-los para o mundo. Os moradores das redondezas que vieram lhe tirar dali, disseram que ele não se cansava de repetir a mesma coisa, como uma vitrola quebrada, que não consegue mais terminar o verso da música. “Imortal, imortal, imortal, imortal, imortal...”

    Jorge não pode mais ter uma vida normal. Entrou em um estado de constante catatonia, abandonado sem identidade, pois ninguém da cidade soube de que família pertencia ou de onde havia vindo. Dele não conseguiam arrancar nenhuma informação, pois seus lábios teimavam em falar frases sem coerência, despidas de qualquer racionalidade, carregadas apenas da loucura que havia constituído morada em sua alma ferida. Sem entes queridos na cidade, acabou sendo internado no hospício local, bancado pelo município junto de tantos outros loucos. Vive agora em um quarto apertado, repetindo sem cessar a palavra que lhe assombra, os braços cruzados no corpo, como uma estátua que represente a decadência a que um homem pode chegar quando desprovido da sanidade. E ele por vezes também grita durante noites que se revelam eternas, quando escuta o arranhar de unhas na janela do seu quarto, olhos verdes cor de esmeralda se destacando no negrume da noite, lembrando-o de coisas que prefere esquecer. Entre sussurros escuta, “imortal...”


Nenhum comentário:

Postar um comentário